Domingo de Páscoa
Os chocolates, as amêndoas, o coelhinho lindo e fofo, tudo é delicioso, mas o real motivo da Páscoa é o renascimento de Cristo, simbolizando o eterno ciclo da vida: o fim que gera um recomeço, através dos filhos, da reencarnação (para quem acredita) ou simplesmente através de uma nova fase nas nossas vidas. Portanto, antes de mais nada, é uma mensagem de otimismo. Que este período complicado pelo qual passa o nosso planeta sirva para purgar os males que afligem a Humanidade e que surja uma nova era baseada na compreensão, no respeito e na honestidade. Só depende de nós mesmos, e todos somos UM.
Ela anda pelo supermercado, toma um saboroso café, e vai registando no telemóvel todos os pensamentos, que mais tarde poderão ser um texto do blogue. Fica também a ver a azáfama de quem faz as últimas compras para o almoço. A seguir, caminha pelas ruas tranquilas da povoação na grande cidade. Foi visitar a família que, na realidade, se resume à mãe nos seus sofridos 84 anos e um irmão que a visita aos domingos para almoçarem os dois, aquela presença mínima que a anima, e sempre que ela necessita, com uma simples chamada.
A vida moderna é assim. Os filhos criam asas e buscam uma vida longe dos seus. Quando o ambiente familiar não é o que se deseja, nem é o melhor dos mundos, até fica difícil discernir se existe a saudade da distância. Existe a saudade, sim, de se ter uma família harmoniosa e afetuosa. Há uma outra filha que mora a pouca distância (física) mas a distância sentimental parece bem longe, ou seja, mal aparece, especialmente nestas épocas festivas! Com a desculpa que está mal, coitadinha, depressiva, ausenta-se completamente ..e isto vai assim há anos! O que pensar, em que acreditar?
Melhor deixar de pensar, de acreditar...apenas vai-se vivendo, feliz por ter (ainda) saúde mental, e física. Passa pelas lindas vivendas, muitas fechadas, talvez foram visitar as famílias e todos juntos comemorarem o almoço de Páscoa. Ela se interroga se ali haverá harmonia, bom ambiente para festejar a vida em qualquer altura do ano, não apenas nas datas festivas. Das poucas famílias que conhece, cada uma tem algum problema, um pior que o outro...neste mundo com tanta falta de amor, doente, resultado de anos, décadas, séculos de obscurantismo e tanta ignorância… Agora começa a ser urgente uma limpeza de tal ordem que levará outras tantas décadas a filtrar o que interessa, e voltar à ordem natural das coisas, aprender o amor de verdade, o natural em vez do artificial (paroles paroles).
Ela considera-se ‘moderninha’, mas há coisas em que ainda é antiquada. Antes, o normal era os jovens respeitarem e procurarem os mais velhos; nem que fosse mostrar sentimentos através de um simples telefonema entre afilhados e padrinhos, por exemplo. Pois… ela nunca teve isso, nem padrinhos nem afilhada, nem sobrinho a querer saber dela, tudo ausente, ou até nem, pois basta ir às redes sociais e lá os verá possivelmente, a mostrar uma felicidade, a virtual… Ela tem sentido (com alguma pena) que está a ficar sem o mínimo interesse em procurar alguém. Para ela, o fluxo normal da vida tem que ser dar-receber. Foi se habituando a ser tão independente, até nos sentimentos, que já nem sabe se sente falta de alguém. E a gente só pode sentir falta do que nos faz bem, nos anima ou acrescenta algo...
Porém, cada um só consegue dar o que pode e o que sabe. As pessoas parecem estranhas, diferentes, após o período da pandemia, por algum motivo...E ela também, cansou, cada vez mais ausente, mais concentrada em si mesma...Quando uma pessoa aprende a amar-se não aceita menos do que aquilo que merece. E já não é sem tempo.

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