O primo Ricardo
A morte repentina de alguém que brincava, dizendo que iria viver até aos 90, no mínimo, chocou toda a gente. O mistério da Vida! Como alguém vai saber: como, quando?
Jaz agora num velório, e eu não fui. Por isso, ainda hoje, agora e de longe, quero prestar a minha sentida e singela homenagem a uma pessoa que, além de ser meu primo, estava sempre bem disposto e disponível para fazer alguns favores, se eu pontualmente precisasse da sua preciosa ajuda e a solicitasse, e nunca esperava nada em troca. Ele merecia tudo de bom. Mas, parece que chegou a sua hora, e acredito que foi em Paz, assim como parecia aqui viver, com a sensação de um trabalho bem feito, a nível familiar e profissional. Ele viverá sempre no coração de todos os que o conheceram, um homem tranquilo, muito “certinho”, com um sorriso e uma palavra sensata, pronto a ajudar quem precisasse de algo e o procurava. Especialmente a minha mãe - a tia - que estava habituada a recorrer ao Ricardo sempre que fosse necessário esclarecer algum assunto mais complicado, burocrático. Diz ela, inconsolável “agora fiquei sem ninguém”… (ela terá os seus motivos para pensar assim). Ainda há menos de 3 meses ele esteve aqui ao pé de mim a passar férias, gostou muito, e desejava voltar ao sul no verão do próximo ano. Fiquei tão feliz com a visita dele. Já estava reformado, mas continuava (com prazer) há várias décadas a trabalhar no escritório de uma empresa de camionetas no centro do Porto, em tempo parcial, onde o patrão era um amigo, quase como família. Como de costume, foi para o escritório na quarta ou quinta-feira passada e, no dia seguinte, o chefe foi lá encontrá-lo sozinho e sem vida. Para todos nós, foi um choque receber uma notícia dessas, sem saber o que terá acontecido, nem quando nem como; apenas ouvi comentar que deve ter caído para trás e tudo acabou naquele instante.
Tão triste pensar que, na maioria das vezes, morremos sozinhos. A não ser no caso de uma doença prolongada, ou por velhice, ninguém gostará de estar sozinho quando "chega a sua hora" algum dia. O Ricardo tinha, tem, um filho e cinco netos. Tem uma amiga, companheira; uma irmã, sobrinhos, e restantes familiares, e no seu último momento esteve sozinho. Ainda me lembro, antigamente, nos nossos jantares de comemoração em família, ele gostava de saber de antemão quantas "meninas" estariam presentes no evento; é que ele gostava de trazer sempre uma rosa para cada uma delas. Era um querido, um cavalheiro à moda antiga. Imagino que poucos homens serão assim, atualmente. Foi preciso esperar a autópsia até hoje, o velório a decorrer agora, e a cremação será amanhã. E eu longe, a uns 600km. Sei que ele entende a minha ausência. Por isso lhe dedico este texto, estas lembranças. Com todo o meu carinho. Não consigo chorar mais além do que chorei no momento da notícia recebida, tenho que aceitar, porque sei (ou sinto) que aquele corpo se acabou, mas o espírito está comigo e com todos os que lhe são queridos, em qualquer lugar.
Entendo que os seres amados nunca morrem, apenas partem antes de nós. Afinal, quem parte desta maneira nem passa propriamente pelo sofrimento; acredito que o Espírito passa para a dimensão da PAZ; e quem sofre, e muito, é quem aqui fica, com a dor da perda, a falta que alguém fará, as dúvidas existenciais que nunca nos abandonam, o medo de perder mais pessoas amadas... É isto a vida da gente, a partir de certa idade. E a morte é o retorno do Espírito ao seu ambiente de origem.
“O nosso corpo é apenas um veículo enquanto a nossa Alma está neste mundo. É a nossa Alma e o nosso Espírito que duram para sempre.” (Brian Weiss)
21-10-1955 a 29-11-2023
RIP (DEP) querido primo!

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