Afetos

Hoje seria dia de aniversário do pai falecido há 24 anos, ele teria agora 91 anos, linda idade para quem consegue lá chegar, com saúde física e mental. Porque a vida vale a pena quando há alegria de viver e o afeto de quem está ao nosso redor; não necessariamente da família, muitas vezes. A mãe vai envelhecendo e se queixando sempre de falta de afeto, nunca soube o que isso era desde que nasceu. E nunca ninguém conseguiu dar-lhe o que sempre lhe fez falta. Irremediavelmente. O ser humano não pode viver sem AFETO. E cada um poderá chamar afeto ao que quiser. Às vezes temos opiniões diferentes de tudo, e é por isso que nunca deixa de haver guerras no mundo. A guerra começa a nível particular, na casa de cada um, quando ninguém se entende a nível emocional.
O afeto muda tudo. O melhor presente sempre será afeto e carinho. Não existe melhor maneira de começar o dia do que com carinho e afeto. Sentir o afeto de alguém é como sentir um abraço apertado. Quando alguém nos procura com frio, é porque temos o cobertor. Devemos deixar o afeto nos afetar. Sem haver afetos… às vezes é necessário fazer uma limpeza, um jejum de pessoas, daquelas que em nada acrescentam, eventualmente até prejudicam os demais com falinha mansa ou manipulações de todo o género, ou apenas fazem perder tempo e a paciência. Foi preciso que a vida a quebrasse em pedacinhos miseráveis para que aprendesse a dar-se valor e a amar-se em primeiro lugar… depois disso, tudo flui, no tempo e ritmo certos. Porque… a solidão é perigosa e viciante, quando nos damos conta da paz que existe nela, não queremos mais lidar com pessoas (vide Carl Jung)… Ahh, também aprendeu o desapego… não é nada fácil, mas muitas vezes necessário. Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena, e desapego pelo que não quer valer. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contacto. Ou toca, ou não toca... (Clarice Lispector)

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