O 25 de abril

Penso que ainda não tinha escrito nada aqui sobre esta importante data. Este ano faz 50 anos desde a revolução dos cravos! Chamam-lhe erradamente a revolução sem sangue, pois houve quem morresse nessa transição, obviamente. Eu tinha 17 anos quando me tornei “retornada” (com irmãos "refugiados" pois nasceram em Angola) depois de ter vivido na colónia dos 4 aos 17 anos. Ainda me lembro (com esta idade) como foi um choque chegar à minha terra natal, que nada tinha a ver com o paraíso tropical a que estava acostumada. Lembro também muito vagamente (como se fosse em outra vida), com uns 4 anos, eu a embarcar com a minha mãe num grande navio rumo ao desconhecido. Felizmente, uma infância e adolescência de super proteção não deixaram mazelas de maior. Deixam outras, mas não essas de aventura forçada, dos pais a irem em busca de uma vida melhor além-mar, que depois nem melhorou grande coisa. A mãe nunca gostou de lá viver, nunca curtiu nada, apenas trabalhava imenso (dia e noite) para ajudar no sustento da casa, algo que (provavelmente) poderia também ter feito na metrópole, mas parece que os tempos de ditadura não são nem nunca foram fáceis. E há quem ainda queira voltar ao antigamente. Eu digo que sou apolítica, alienada, mas sei falar umas coisitas. Que é bom viver em LIBERDADE, mas, e sendo leiga no assunto, acredito que as colónias poderiam ter sido entregues de outra forma, sem prejudicar quem lá viveu e trabalhou muito. Não houve quem só andasse a roubar e maltratar “o neguinho”, muito mais houve quem fez muito por aquelas terras e tratava bem os africanos, como família. Acredito eu. Viemos com uma mão na frente e a outra atrás, deixando lá tudo (quem conseguiu acumular bens ou propriedades, claro). Lembro de os maus pais trazerem algum pouco dinheiro escondido em cintos, e quando chegaram cá o dinheiro não servia para nada, não era aceite! Foi tudo uma tristeza, mas eu era jovem (inconsciente), nem me apercebi da dimensão de tal tristeza, de vidas desfeitas. Apenas notava que o espaço físico era bem diferente, para pior. Porém, muita gente esperta bem se safou, sabendo de antemão o que iria acontecer, mais cedo ou mais tarde, iam trazendo os bens para cá, aos poucos. A conflitualidade dentro e fora da Europa trouxe para Portugal milhares de refugiados, e retornados, há que distinguir. Após a revolução de 25 de Abril de 1974 cerca de meio milhão de portugueses regressaram a Portugal oriundos das antigas colónias, que entretanto se tornaram independentes. Ficaram conhecidos por Retornados, apesar de muitos não terem ao que retornar tendo deixado todo o esforço de uma vida noutro continente. E muitos recomeçaram a vida do zero, como a minha família. Alguns ainda aproveitaram (e bem) os apoios do IARN, outros nem sabiam onde ou como obter qualquer apoio. Tempos de muita ignorância, daí resultar em muita miséria. A minha mãe lembra-se de encontrar bens alimentares à porta de casa, pois felizmente havia muita gente solidária com a situação de quem regressou sem nada, no caso dela, com 4 filhos todos menores. Hoje em dia é a grande LIBERDADE tão desejada, os filhos doutores e engenheiros, e muitos jovens nem sabem o que é ou o que aconteceu no 25 de abril, apenas que é um dia feriado e serve para um fim de semana prolongado, às vezes. Até parece um mundo mais feliz, ou podia ser, mas também não é bem assim. Muita loucura com tanta liberdade. Sei lá, dou comigo a pensar como seria um mundo inteligente com todos de bem com a vida, e uns com os outros. A imagem do paraíso. Talvez um dia. Há quem não saiba viver em liberdade (desenfreada)… sem respeito pelos outros, nem por si próprio. Salve-se quem puder!

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